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"Viva Maria pisa papelão amassando lembranças, descalça fome caminha com seu olhar criança. Sob viadutos eliminados a sociedade desova, cidadãos aniquilados caixotes feito cova."
Por si só já e o poema que mais gosto, que mais identifica o meu próprio trabalho, não que seja o melhor, pois tenho outros trabalhos com a mesma pegada da caneta, com a mesma teclada e a mesma postura no mouse, postados com a convicção de que se procura pela perfeição poética. Mas, pelo que dizer de “Desigualdade” na figura de famílias inteiras brasileiras, que se reservam o direito de isolar-se da imposta civilização, da segregação do CPF; do passe limítrofe que e o RG; do beneficio Bolsa Escola que pode lhe calar a boca; do Vale Gás que dificilmente vai acender a chama; da carteira assinada com direito a FGTS e PIS... Isso reproduz uma certa sensação de liberdade desordenada ou de aparente indigência?
O poema retrata a mãe de família amassando o ganha pão, reduzindo o peso da sua responsabilidade, nas pisadas compassadas no amasso da madeira, que além de papel se transforma em dinheiro, para matar a fome, da fome que massacra a infância e a juventude de milhões de jovens brasileiros, cabisbaixos a margem de uma cidadania duvidosa... Que mesmo com o projeto Minha Casa Minha Vida, não se ergue a autoestima de todos e a casa dificilmente estará regularizada para receber a família desprotegida pela burocracia tupiniquim em tempo hábil, para não escafeder-se em vida...
Os viadutos das grandes capitais, das grandes Metrópoles, são condomínios superfaturados pelo sistema, onde se veem corpos desovados em pontos estratégicos da cidade, mutilados dos seus direitos e da real atenção que não acontece, não restando alternativa senão encarar a guerra, que as ruas nas maiores noites e demoradas horas de horror, proporciona a sobrevivência afiada junto à miséria, a fome e o descaso dos poderes públicos, que consumidos pela corrupção, vê no povo, na massa de manobra, a solução para os seus problemas. Vê nessa mesma miséria uma valorização do investimento publico e de direito...
E em "Desigualdade" não e diferente, e assim, o povo vivendo enterrado em caixotes de madeira e grandes caixas feitas colchão de papelão, travesseiro de isopor quebrado aos pedaços, cozinhando no malabarismo dos tijolinhos e de panela feita lata de tinta, onde em fogo brando a escassez material boia na abundancia liquida, esfumaçando no carvão de talas de madeira de lixo reciclável; entre cobertores de retalhos e sacos de utensílios, expostos ao edredom do ridículo, da descoberta inconstitucional, da humilhação posicionada nas lentes do universo turístico, que invade e explora essa mesma miséria de ruas, viadutos, marquises e sinaleiras...
De um país que não merece o que fazem com os seus cidadãos; com os seus idosos e com seus jovens também... Ainda escravizados e comercializados no mercado interno ao cambio de blocos, material esportivo, sacos de cimento, dentadura e requisição para exames; com direito a analfabetismo, desconhecimento, falta de cultura, desinformação, extrema desvalorização pessoal e mórbida pobreza. Onde o povo e feito resíduo, apresentado como resto, saldado como resquício e mostrado como retrato de uma nação onde uns têm demais e outros sobrevivem com bem menos aos olhos do mundo... E no enredo da peça Chacota Burguesa! |
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